terça-feira, 1 de julho de 2008

Linux vs. Usuário Final, parte 2.1 - "Usabilidade"

Sim, "usabilidade" é um neologismo. Mas é um ótimo neologismo e farei uso dele sem peso na consciência. Aliás, não entendo essa discriminação com neologismos: se eu mantivesse rigidez lingüística de 20 séculos para cá, estaria escrevendo em latim agora. Cum Latine nescias, nolo manus meas in te maculare. Deo gratias pro Unicode.

No post passado, comentei sobre fustrações freqüentes com o Linux durante minha jornada, apesar de o Linux ser o meu sistema favorito... com larga vantagem sobre o Windows. Tomarei um caminho pouco popular agora e entrarei em detalhes maiores sobre as frustrações atuais.

Antes de me chamar de "advogado do diabo", afirmo que não estou defendendo nenhum sistema, muito menos o Windows; até este momento, ele ainda é o sistema operacional mais caro, menos seguro, menos estável e apesar de tudo isso, mantido pela empresa de software mais rica do mundo. Sendo assim, qualquer desvantagem do Windows sobre qualquer outro sistema é um fracasso inadmissível. Qualquer vantagem do Windows sobre outro sistema é o mínimo esperado.

No entanto, não existe sistema perfeito (embora não tenha experimentado o MacOS X ainda) e só porque uso Linux, não quer dizer que ele é um paraíso. Pode ser a minha fortaleza e pode me poupar stress e sanidade, mas quero falar de algumas coisas que ainda me irritam nele.

Maleabilidade:

Todo usuário de Linux concorda que, após a curva infernal de aprendizado, você acaba criando o seu Linux à sua imagem e semelhança. Nenhum outro sistema se aproxima do Linux nesse detalhe. Passe um ou dois anos aprendendo a configurá-lo, e o seu sistema provavelmente fará quase tudo à sua maneira. Qualquer outro sistema lhe parecerá exasperante após isso, até mesmo o Linux no desktop do seu colega ao lado. Que ele jamais trocaria pelo seu. :)

A desvantagem: se você não tem um amigo que seja entusiasta, paciente e proficiente para ajudá-lo, toda essa maleabilidade é caótica e irritante. Aonde mudo a resolução aqui? Que programa eu utilizo para baixar novos programas? Por que tenho quatro programas para gravar CDs, e preciso conferir todos eles para decidir que um deles é perfeito e três são um lixo? Por que tenho 6 media players, 5 são imprestáveis e há outros 10 que são excelentes mas estão escondidos dentre os 10.000 programas que preciso selecionar e baixar antes?

Google para a salvação, talvez? Talvez. Pelo problema do "apego" aos seus próprios desktops, a maior parte dos textos sobre Linux acaba empurrando-o involuntariamente a recomendações bizarras, motivadas por ideologias que levam anos para compreender. KDE vs. Gnome vs. console vs. fluxbox, qt vs. GTK, GPL vs. licenças proprietárias, Ubuntu vs. SUSE vs. Debian vs. Gentoo... ouvindo essa gente falando, há momentos em que você realmente acredita que precisa formar opinião sobre estas guerras ideológicas antes de experimentar qualquer coisa. E aí você desiste e volta para o Windows.

A proporção de usuários de Linux "cabeça aberta" para os ideológicos é de cerca de 1 para 10. Quando você achou a fórmula que lhe parece perfeita no Linux, as alternativas lhe parecem perda de tempo, e aquele seu amigo que insistiu para experimentar o Ubuntu pode acabar enchendo o seu saco e recusando ajudá-lo só porque você pegou um sistema que usa Gnome e ele é fã de KDE. Por aí vai.

Ao invés de ler que o K3B é, sem traço de dúvida, um dos melhores e mais amigáveis gravadores de CD para qualquer sistema, (idem sobre o AmaroK como player de áudio), alguns malucos do Gnome insistirão que você deve usar o GnomeBaker e o RhythmBox ou Exaile para não consumir mais memória carregando as bibliotecas do qt/KDE juntamente com as do GTK/Gnome.

Que diabos é um qt? É pra instalar na bicicleta ou passar no pão? Eu preciso saber para usar um maldito programa? Por que tenho que me privar de metade dos melhores programas para que meu sistema não exploda?

Pois ele não vai explodir. Você não precisa dar a mínima para isso, não vai sentir nada, e você acabou de conhecer um usuário envolvido na guerra ideológica do KDE vs. Gnome. Não se preocupe em entender o que é isso; é uma competição estúpida que não vale o seu interesse. Instale o que quiser.

(Para fãs de Gnome que estão acompanhando, digo que o oposto também vale; tem muito usuário de KDE que decide que você não precisa do Firefox ou do Gimp... tem o Konqueror e o Krita no KDE! A última versão do Kubuntu (Ubuntu com KDE pré-instalado) obriga o usuário a fazer download do Firefox porque julgam o Konqueror suficiente. Prepare-se para odiar o seu segundo navegador, depois do IE. O Konqueror não é ruim, mas colocá-lo no lugar do Firefox é uma idiotice que beira a insanidade.)

Resumindo o problema: excesso de escolhas, excesso de opiniões, e opiniões fervorosas que entram no campo etéreo da política ou religião ou futebol. Muita gente cai nessa rede antes do primeiro test-drive do Linux, e sai assustada com o aparente caos das escolhas e a total falta de consenso dos próprios usuários de Linux.

Boa parte do argumento "Windows é mais fácil" tem suas raízes aí, e o argumento tem peso. De que adianta saber que o Linux pode ser até mais fácil de usar se for bem configurado, quando você sequer entende o jargão e a guerra-santa dentre os usuários que poderiam ajudá-lo?

Sem uma base de ajuda sensata, é mais viável pagar R$250 por uma cópia do Windows. Ou, melhor ainda: instalar uma versão pirata, sem atualizações de segurança, que vai trancar o seu computador assim que você se distrair e mandar atualizar sua versão ilegal nos sites da Microsoft. Que tal?

Aí você formata tudo, e repete o ciclo... porque quando você arriscou instalar o Linux, sua experiência foi pior do que isso.